Mãe de pet existe?
O que aprendi pesquisando maternidade e especismo
Mãe, substantivo feminino. A mulher que deu à luz um ou mais filhos e os cria ou criou. Fêmea de animal que deu à luz uma ou mais crias. Por extensão, pessoa generosa e bondosa que dispensa cuidados maternais, que protege muito aos outros. Em linguagem figurada, causa ou origem de algo. Lugar onde uma coisa teve origem e cujo desenvolvimento proporcionou aperfeiçoamento e ramificações. Essa definição da “mãe” no dicionário nos remete ao uso comum do termo na língua portuguesa, e indica o quanto a maternidade é conectada à gestação, parto e trabalho de cuidado de um ser da sua espécie. Questionar essa categoria tão evidenciada como natural e imutável não é tarefa fácil. Muito discutimos o que define uma mãe – genética, biologia, construção social – mas pouco ainda falamos (pelo menos de forma séria) sobre a possibilidade da maternidade ser exercida em uma relação entre espécies diferentes.
Talvez esse fenômeno cause estranhamento apenas quando pensamos em humanos e não humanos. Entre animais não humanos, a adoção de filhotes de espécies diferentes é um acontecimento relativamente comum. Cadelas adotam felinos, aves adotam filhotes de ninhos vazios e até mesmo ovelhas adotam rinocerontes e elefantes: No Centro de Reabilitação Shamwari na África do Sul, a ovelha Amanzi ficou conhecida por adotar o rinoceronte Gertjie, órfão após sua mãe ser morta por caçadores, e o elefante Lammie, resgatado após ficar preso em uma vala.
Amanzi e Lammie | áfrica do sul, 2016
Podemos pensar em Amanzi e seus filhotes Lammie e Gertjie como uma família multiespécie que vive em conjunto de forma harmoniosa. Não paramos para questionar a relação entre uma ovelha e um elefante: ela parece ter o adotado e agora exerce uma função de cuidadora. É simples, mas nós humanos gostamos de complicar as coisas: envoltos em nosso próprio sistema de parentesco e julgando sermos de uma espécie superior, queremos nomear hierarquicamente essas relações. Assim, muitas pessoas se ofendem com empréstimos linguísticos de categorias simbólicas como “mãe”, “pai” e “filho” para tratar de relações entre humanos e não humanos.
Todo mundo conhece a polêmica anual de Dia das Mães, em que a famosa frase “mãe de pet não existe!” é compartilhada exaustivamente em mídias sociais. Nunca muito inovadora, o mesmo tipo de conteúdo se repete: influenciadoras de maternidade fazem longos vídeos sobre como o termo “mãe de pet” é ofensivo, os memes pixelados da Nazaré Tedesco e as piadas com “mães de planta” e “mãe de garrafa pet” voltam a circular.
Em 2018, realizei – em conjunto com as pesquisadoras Fernanda Medeiros e Paula Pinhal de Carlos – a pesquisa “Mães de Pet: Maternidade e Especismo”. Já citei brevemente a pesquisa nessa newsletter para falar sobre o luto de espécies companheiras, mas hoje trago mais resultados para discutir de fato o uso do termo. Entre nossas perguntas de pesquisa, questionávamos se a “mãe de pet” de fato existia, porque o uso do termo ofende tanto e se há uma comparação efetiva entre “mães de humanos” e “mãe de pet”. 92% das 851 mulheres participantes vivem com animais domésticos em suas casas, e 83% destas se consideram mães de seus animais não humanos. 43% são também mães de crianças e adolescentes humanos. São 725 animais não humanos ao todo na pesquisa – desde cachorros até jacarés – 70% resgatados ou adotados e 30% comprados em agropecuárias ou criadores. 18% das participantes são contrárias ao uso do termo “mãe de pet”. Depois de quase 10 anos que iniciamos essa pesquisa, compartilho os resultados que mais me marcaram.
1. A maternidade multiespécie não é nada revolucionária
No livro, eu finalizo questionando a visão de algumas participantes sobre a maternidade multiespécie ser “libertária” e algo revolucionário, pois não temos nada de inovador: a maioria das participantes ainda conecta maternidade com trabalho de cuidado: sou mãe porque cuido.
“é uma forma de cuidado e carinho com seres que nos são totalmente dependentes. Apenas. Com certeza ser mãe/pai de cachorro ou gato é bem diferente de ser mãe de uma criança. Não penso que o uso do termo diminui ou tenta colocar em pé de igualdade a maternidade, depende mais de como é usado do que do uso do termo em si” (Participante n. 240, mãe de dois cachorros)
Cuidar de um animal não humano é diferente de cuidar de uma criança em responsabilidade, complexidade e carga social, e todas as participantes da pesquisa se mostraram cientes disso. Porém, quando mudamos o foco para o trabalho de cuidado em si, compreendemos que é uma questão de gênero: o trabalho doméstico e reprodutivo é visto como uma atividade feminina, não remunerada (feita por amor) e uma vocação natural da mulher. Entre cuidados humanos e não humanos, são as mulheres as principais responsáveis por essa atividade. Também se espera trabalho de cuidado de mulheres que não são mães de crianças, e às vezes até mais, pois mulheres sem filhos são consideradas “desocupadas” e que deveriam “ajudar mais”.
2. Dizer que é muito fácil cuidar de animais não humanos é um argumento especista
Argumentos especistas surgiram como justificativa para não aceitação do uso do termo “mãe de pet”: o mero tratamento digno e ético de um animal não humano é muitas vezes visto como uma forma de humanização destes, enquanto também demonstram uma suposta superioridade humana. “Gente” é uma coisa, “bicho” é outra.
“Tenho certo incômodo com a relação de animais que parecem ocupar o lugar de pessoas...sou totalmente a favor do cuidado, me incomoda demais saber que algum animal foi maltratado, mas entendo que a posição deles não pode ser equiparada a de pessoas em uma relação” (Participante n. 151, mãe de um filho humano)
“Não concordo. Maternidade não é pegar o filhote de outra espécie e deixá-lo com um pote de ração e água” (Participante n. 506, mãe de dois filhos humanos)
“Não. Animais não são filhos, no máximo os humanos podem se considerar donos, tutores, criadores ou cuidadores. Gente é gente e bicho é bicho e a humanização destes últimos é doentio” (Participante n. 263, mãe de dois filhos humanos e tutora de cachorros)
Se definir como dono, tutor, pai ou mãe de um bichinho não possui qualquer diferença prática, sendo apenas termos emprestados para definir uma relação. Contudo, animais não humanos merecem respeito e tratamento ético. Não são seres inferiores, e suas vidas podem ser complexas, marcadas por históricos de trauma, violência, fome e negligência. A construção desses vínculos interespécies exige tempo e processos contínuos de confiança, reabilitação, adaptação e cuidado, algo infinitamente maior que apenas oferecer água e comida.
3. “Mãe de pet” é um lugar de afeto, não um lugar social
Uma conclusão importante da nossa pesquisa foi enxergar as diferenças entre campo social e campo de afeto: ser mãe de pet não traz consigo nenhuma carga social, sendo um empréstimo linguístico situado no campo do afeto, e isso ninguém pode discutir: eu não posso chegar para uma pessoa que se diz mãe de seu cachorro, por exemplo, e proibi-la de usar o termo, porque ninguém manda sentimento do outro. No lugar de dizer que a mãe de pet não existe, devemos compreender que a diferença entre uma coisa e outra é o peso social, o trabalho de cuidado, as expectativas e desdobramentos jurídicos, econômicos e políticos de criar crianças humanas nesse mundo.
“é uma palavra. Com o uso, pode ser aplicada ao propósito que o falante preferir. O termo 'mãe de pet descreve apenas um laço de amor, não uma experiência socialmente similar” (Participante n. 129, mãe de um gato)
A mãe de pet existe. Longe do estereótipo de loira fútil que mima seu cachorro de raça – ou ainda da childfree que despreza crianças e tem muitos gatos – estamos falando de mulheres que optam em conviver com animais não humanos como espécies companheiras. Antes de criticar o mero empréstimo afetivo de uma categoria simbólica, devemos pensar porque isso nos incomoda tanto. O que o ódio gratuito às mães de pet nos diz sobre o modo que tratamos os animais não humanos enquanto sociedade? Mesmo achando que a treta é uma problematização inútil, ela ainda pode servir para cada um de nós encarar nosso próprio especismo no espelho.
Arte: Red and Howling. Disponível em: https://redandhowling.com/2019/05/10/moms-are-the-best/





Gostaria de ver a pesquisa mais aprofundada. Tem disponível? Esse texto me trouxe mais dúvidas haha por exemplo, as pessoas foram questionadas se já tiveram que dar/doar algum animal de estimação/filho? Essa relação elas tem com toda e qualquer espécie domesticada? Elas comem carne? Acho que nenhum das questões traria uma resolução em si (mt menos essas duas últimas que aprofundam ainda mais o especismo), mas acho que elas ajudariam a entender essa relação. Outra coisa que gostaria de entender é se usar o termo "mãe de pet" banaliza a problemática social e política das mães ou, ainda, se contribuiu para um aumento da consciência e respeito com seres de outras espécies. Gosto dessa temática haha beijosss e obrigada